Quinta-Feira, 20 de Agosto de 2026

DATA: 20/08/2026 | FONTE: campograndenews Novo plano deve transformar Mato Grosso do Sul em polo nacional de fertilizantes Subsídios bilionários por cinco anos garantem expansão de fábricas e redução da dependência externa ao agro

Com a perspectiva de reduzir a dependência brasileira de fertilizantes importados, o Profert (Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes), que prevê fomentar a produção nacional de ureia e amônia, deve potencializar a retomada dos investimentos da Petrobras em Três Lagoas. Deve ainda incentivar a formação de um polo de fertilizantes no Estado, com efeitos sobre a indústria, o agronegócio, a cadeia de fornecedores e a economia local.

Essa é a avaliação da senadora Tereza Cristina (PP-MS), que relatou o programa que prevê subsídios de R$ 10 bilhões, em até cinco anos, a partir de 2027, para novas fábricas de fertilizantes e suas matérias-primas, além da expansão e modernização das unidades existentes. O benefício será concedido por meio de créditos fiscais de tributos federais.

“Os incentivos que o Profert trará serão um esforço complementar aos investimentos que a Petrobras retomou em Três Lagoas, sobretudo, e em outras regiões. O Profert pode dinamizar os empreendimentos de Mato Grosso do Sul em torno do novo polo de Três Lagoas, trazendo prosperidade não só para o agro, mas para a economia do Estado como um todo”, disse a parlamentar ao Campo Grande News.

A senadora destacou a importância do programa e acrescentou que ampliar a produção de fertilizantes no Brasil é hoje uma questão não apenas de segurança alimentar, mas também de segurança nacional. Nesse cenário, ela aponta janelas de oportunidade para Mato Grosso do Sul.

Fruto do Projeto de Lei 699/2023, originário da Câmara dos Deputados, o projeto foi aprovado recentemente pelo Senado e aguarda sanção presidencial desde o dia 17 deste mês. O Palácio do Planalto tem até 4 de setembro para sancionar ou vetar trechos da proposta, que passará ainda por regulamentação.

Retomada de investimentos

A Petrobras retomou, em abril deste ano, as obras da UFN-III (Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III), em Três Lagoas, após uma década de paralisação. Com investimento próximo de US$ 1 bilhão para a conclusão da unidade, a previsão é iniciar a operação comercial em 2029.

Sem entrar nos detalhes sobre eventual uso dos subsídios previstos no programa, a Petrobras afirmou à reportagem que a retomada da unidade segue no Plano de Negócios da companhia. Acrescentou que acompanha a tramitação do projeto e aguarda a conclusão no legislativo, incluindo eventual sanção presidencial e, posteriormente, a regulamentação da matéria.

A UFN-III terá capacidade para produzir 3,6 mil toneladas de ureia por dia, o equivalente a cerca de 1,2 milhão de toneladas por ano, além de 2,2 mil toneladas diárias de amônia. A Petrobras prevê o início da operação em 2029 e estima que a unidade possa responder por cerca de 15% do mercado brasileiro de ureia.

Diante da disparada dos preços em razão de conflitos internacionais, principalmente entre Israel e Irã, as importações de fertilizantes realizadas por Mato Grosso do Sul caíram 52% no acumulado deste ano, de janeiro a maio, segundo dados da Aprosoja (Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso do Sul. O volume passou de 90,3 mil para 43,4 mil toneladas, liderado pelos fertilizantes fosfatados, que caíram 93,3% nesse período.

O Brasil importa cerca de 80% dos fertilizantes que consome, e o preço da ureia subiu mais de 50% em 2026, pressionando os custos de produção no campo.

Redução de custos

Para a economista Renata Farias, consultora-chefe da Fiems Conecta (Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul), o principal impacto do Profert previsto para Mato Grosso do Sul deve ser a consolidação financeira e a segurança regulatória necessárias para viabilizar definitivamente a UFN-III, em Três Lagoas.

Sem estimar um percentual, a economista aposta ainda na redução dos custos de importação de fertilizantes e de matérias-primas, considerando que o programa deve contribuir para ampliar a produção nacional e, paralelamente, reduzir a exposição do setor às oscilações do mercado internacional.

O projeto aprovado pelo Senado prevê incentivos fiscais de até 20% sobre investimentos empresariais destinados à produção de fertilizantes, matérias-primas e bioinsumos (agentes de controle biológico de pragas, doenças e plantas daninhas), com recursos do BNDES.

O programa propõe ainda metas crescentes de mistura de fertilizantes brasileiros aos produtos comercializados no território nacional. Os critérios dos empréstimos, como encargos financeiros e prazos, serão estabelecidos pelo CMN (Conselho Monetário Nacional).

O acesso aos incentivos fiscais não será automático, segundo a economista da Fiems. O Poder Executivo selecionará as empresas interessadas por meio de uma disputa concorrencial pública e as propostas passarão pela análise formal do Ministério da Agricultura.

O entendimento, contudo, é de que a injeção de recursos federais, somada aos incentivos previstos, reforça a viabilidade econômica do programa no Centro-Oeste, maior produtor de commodities agrícola do País.

Para a especialista da Fiems, o programa tem potencial para amortecer a exposição a crises internacionais envolvendo ureia e amônia. Em Mato Grosso do Sul, esses fertilizantes são amplamente utilizados no custeio das safras de soja e milho, tanto no plantio das commodities quanto em atividades derivadas, como a produção de etanol de milho.

“Ou seja, ficaremos menos expostos a choques exógenos de preços de fertilizantes importados”, destaca Renata.

O titular da Semadesc-MS (Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação), Artur Falcette,  acompanha as novas fases de tramitação do projeto e considera a temática dos fertilizantes de extrema relevância para o Brasil, não apenas para Mato Grosso do Sul.

“Nossa agricultura é extremamente dependente da importação de fertilizantes e o país precisa construir uma agenda de autonomia robusta”, defendeu, sem comentar se o Estado tem novos projetos industriais em prospecção.

Mistura obrigatória

O projeto cria uma exigência gradual para aumentar a presença de fertilizantes brasileiros no mercado interno.  O percentual será estabelecido pelo Confert (Conselho Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas), após a regulamentação do projeto e que terá o papel de mensurar a viabilidade técnica do incremento anual do percentual no mercado.

A proposta é de que a partir de 1º de julho de 2027, pelo menos, 2% da mistura comercializada seja composta por fertilizantes sintéticos ou minerais extraídos e produzidos no Brasil. Depois o percentual deve subir para 10% até 1º de janeiro de 2037 e variar de 10% a 30% a partir de 1º de janeiro de 2038.

 

Por Viviane Monteiro, de Brasília

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