
Em uma cidade de cerca de 50 mil habitantes, a violência ganhou um roteiro que a Polícia Civil agora tenta remontar peça por peça. O primeiro capítulo, segundo a investigação, foi escrito em junho, no distrito de Capão Seco, onde um “tribunal do crime” terminou com a morte de Tobias Felipe Ribeiro de Carvalho. A partir dali, uma sequência de ataques, execuções e tentativas de homicídio passou a atravessar bairros de Sidrolândia.
Da esquerda para a direita: Tobias, Cleiderson e Douglas Amorim, assassinados em meio à disputa entre facções criminosas (Foto: Reprodução)
O que parecia uma sucessão de crimes isolados começou a revelar uma mesma lógica: ataque, vingança e novo ataque. De um lado, o CV (Comando Vermelho); do outro, o PCC (Primeiro Comando da Capital). No centro da disputa, segundo a Polícia Civil, está o domínio do tráfico de drogas e de rotas usadas pelas organizações criminosas.
O delegado Guilherme Oliveira Pena, responsável por investigar os crimes, afirma que de junho até hoje, já foram identificados 13 homicídios consumados e tentados relacionados à guerra entre as facções.
Tudo começou no tribunal do crime que ocorreu em junho, no distrito de Capão Seco, que matou Tobias Felipe. “Logo na sequência, teve outro atentado aqui em Sidrolândia contra o Cabeça Gorda. Nesse homicídio, foram presos dois indivíduos do Comando Vermelho, de tentativa de homicídio em relação ao Cabeça Gorda”, contou Guilherme.
Na sequência do caso do Capão Seco, veio a tentativa contra “Cabeça Gorda”, apontado pelo Ministério Público como integrante de uma organização criminosa que atuava em Sidrolândia. A denúncia descreve um “tribunal do crime” em que a vítima, conhecida como “Maranhão”, teria sido julgada por integrantes do grupo após ser acusada de repassar informações à polícia.
A ordem de execução teria partido de “Cabeça Gorda”, que estava preso e participou do julgamento por videochamada. A vítima foi espancada, amarrada e colocada no porta-malas de um Corsa para ser levada até uma área rural e executada. Durante o trajeto, porém, conseguiu escapar e buscar ajuda.
Para o delegado, aquele episódio foi apenas o início de uma escalada que passou a ser alimentada por vinganças entre CV e PCC.
“Aí tiveram vários outros homicídios, consumados e tentados. Teve um homicídio em relação ao Rodrigo, cujo vulgo é Vermelhão, também identificado como faccionado. Na sequência, teve o homicídio do Costela, também, que é um integrante do PCC".
Costela e a primeira grande retaliação
No fim de agosto, Alessandro dos Santos, conhecido como “Costela”, foi baleado por um homem que se aproximou a pé na região do Bairro Cascatinha II. Ele foi socorrido em estado gravíssimo, mas morreu no Hospital Dona Elmíria Silvério Barbosa.
A morte, segundo a investigação, teria provocado uma reação do Comando Vermelho. Horas depois, um grupo armado invadiu uma casa no Residencial Cascatinha Dois. Cleiderson Chaves da Rocha, de 22 anos, foi executado no andar superior do imóvel enquanto uma mulher era mantida refém na cozinha.
Sete homens chegaram a ser inicialmente mencionados no relato da ocorrência, mas, segundo o delegado, o número de envolvidos era menor.
“Esse homicídio do Costela, na sequência, já gerou a retaliação do Comando Vermelho. Eles foram lá naquela casa que, a princípio, foram sete indivíduos. Não eram sete, eram menos. Mas, de qualquer forma, foram identificados vários suspeitos. Inclusive, no dia seguinte do homicídio, a gente prendeu dois deles. As investigações seguem".
Até o momento, cinco pessoas foram presas e duas morreram em confrontos com as forças de segurança durante as investigações. Entre elas estão Pierre, em ação da Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Bancos, Assaltos e Sequestros), e Dionatan Ribeiro de Souza, de 28 anos, conhecido como Coringa, atingido durante uma abordagem do Batalhão de Choque. O rapaz era investigado pela participação na execução de Cleiderson Chaves da Rocha.
Paulo Ricardo Bueno, o "Terrível" ou “Pierre CV” em foto com arma publicada nas redes sociais (Foto: Instagram/Reprodução)
Depois da morte de Costela e da execução de Cleiderson, a disputa avançou para outros alvos. Entre eles estava “Boladinho”, que, conforme o delegado, inicialmente seria integrante do PCC, mas teria migrado para o Comando Vermelho.
A partir daí, a investigação passou a identificar uma sequência de ataques atribuídos ao CV contra integrantes ou suspeitos de ligação com o PCC. Entre os nomes citados está Paulo Ricardo Bueno, conhecido como “Terrível” ou “Pierre CV”, apontado pela Polícia Civil como integrante do Comando Vermelho. Ele foi morto em setembro, durante uma abordagem do Garras, em Campo Grande, e era investigado por envolvimento em ataques a tiros registrados em Sidrolândia.
“Depois tiveram três homicídios na sequência do CV contra PCC. Um do Leomar, que é um lá no Jatobá, uma tentativa de homicídio na casa do falecido Coringa, e a tentativa de homicídio também em relação a um rapaz e à namorada dele”.
Setembro mantém a escalada - Em setembro, a violência continuou. Leomar Nunes foi baleado na madrugada de 11 de setembro, no Bairro Jatobá, depois que dois homens chegaram de motocicleta, arremessaram artefatos semelhantes a coquetéis molotov contra uma residência e efetuaram disparos.
Horas antes, um adolescente de 17 anos também havia sido assassinado a tiros na cidade. Segundo testemunhas, dois homens chegaram de bicicleta e efetuaram os disparos.
Dias depois, Douglas Amorim Lopes, de 36 anos, foi morto a tiros no Bairro Jatobá. A investigação também passou a considerar a possibilidade de envolvimento da vítima com facção criminosa.
Os ataques não ficaram restritos aos homicídios consumados. Em outro episódio, um homem foi surpreendido na casa da namorada por um casal que chegou de motocicleta e abriu fogo. Mesmo baleado, ele conseguiu fugir e buscar atendimento médico. A polícia prendeu dois suspeitos, apreendeu armas e munições e, segundo o registro policial, um deles confessou os disparos.
O delegado afirma que a sequência tem uma lógica própria: cada ataque alimenta o próximo. “Todos os homicídios têm relação, no sentido de serem retaliações. Uma com a outra. O CV ataca e aí o PCC, para mostrar poder, vai e ataca de novo. E vai sendo assim”.
Além da retaliação entre os grupos, a investigação identificou a participação de criminosos de outras cidades nos ataques. “Não são necessariamente as mesmas pessoas, porque a gente também já identificou que o CV, principalmente, tem vindo pessoas de fora da cidade para executar aqui e vão embora”.
A investigação também aponta que a disputa não fica restrita a Sidrolândia. Segundo a Polícia Civil, integrantes das facções circulam entre diferentes municípios, o que amplia o alcance dos ataques e dificulta o trabalho de identificação dos envolvidos. Maracaju aparece entre as cidades que passaram a ser monitoradas nesse cenário.
“São do mesmo grupo. O Comando Vermelho tem relação entre eles e o PCC o mesmo. Inclusive, estão tendo muitos atentados ali em Maracaju, e, bem perto daqui, achamos também que algumas pessoas de lá vêm cometer aqui e voltam para lá e vice-versa”.
Para a Polícia Civil, por trás da sucessão de mortes existe uma disputa maior pelo controle territorial e pelo tráfico de drogas. A investigação trabalha com a possibilidade de que Sidrolândia esteja inserida em uma movimentação mais ampla das facções no Estado.
“Na verdade, é a questão do domínio. Temos informação aqui de que eles começaram esse movimento ali por Sonora, lá no norte do Estado, e também descendo para realmente fazer o domínio.”
O delegado afirma que a disputa também envolve as rotas utilizadas para o tráfico de drogas e aponta uma mudança no domínio dessas áreas entre as facções.
“Temos observado que o tráfico de drogas eles estão pegando aqui na cidade também. Então, um dos objetivos é possivelmente a rota do tráfico. Antigamente era até o CV que dominava, mas aí PCC conseguiu e agora o CV está retomando aí com força. Então, acho que a rota da droga é o principal”.
A movimentação de integrantes entre diferentes municípios faz com que a disputa ultrapasse os limites de Sidrolândia. Para a Polícia Civil, a circulação de criminosos e a atuação de grupos de outras regiões ampliam a complexidade das investigações.
Com o avanço dos ataques, a polícia passou a mapear os integrantes das facções, cruzar informações de diferentes ocorrências e identificar suspeitos de envolvimento nos crimes.
“O que temos feito é mapear esses faccionados e, aqui, com o nosso trabalho de inteligência, conseguir coibir, de alguma forma, seja fazendo operações de busca e apreensão e, efetivamente, a prisão desses faccionados, para evitar essa escalada dessas facções aqui no Estado".
Por Bruna Marques
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