
A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul chegou aos seis adolescentes apreendidos nesta terça-feira (15.set), durante a 2ª fase da Operação Lívia, a partir da análise técnica de celulares, computadores, mídias e outros materiais apreendidos na primeira etapa da investigação.
Deflagrada pela DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), a operação investiga a atuação de comunidades virtuais de extremismo digital suspeitas de induzir crianças e adolescentes à automutilação, violência, crueldade contra animais, misoginia e outras práticas de extrema violência psicológica.
Após a primeira fase, os investigadores fizeram uma análise técnica do material recolhido e conseguiram identificar novos envolvidos, além de avançar na compreensão da dinâmica e da estrutura dos grupos. O trabalho permitiu individualizar novos suspeitos e reunir elementos que fundamentaram as medidas judiciais cumpridas nesta terça-feira.
Ao todo, foram cumpridas seis medidas cautelares de busca e apreensão de adolescentes e seis mandados de busca e apreensão domiciliar nos estados da Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, além do Distrito Federal. Os seis adolescentes foram apreendidos e encaminhados às autoridades competentes.
Computador e outros equipamentos eletrônicos apreendidos durante a operação (Foto: Divulgação/PCMS)
As diligências desta segunda fase buscam esclarecer a função desempenhada por cada investigado dentro das comunidades virtuais, incluindo possíveis atividades de recrutamento, administração, moderação e coerção de vítimas.
Entenda - A Operação Lívia começou a partir da investigação envolvendo uma adolescente de 13 anos, de Naviraí, que morreu em julho durante uma transmissão ao vivo no Discord. A partir do caso, a Polícia Civil passou a monitorar as interações digitais e identificou indícios da existência de uma rede mais ampla, com outros envolvidos e possíveis vítimas.
Na primeira fase, realizada em agosto, um adulto foi preso e cinco adolescentes foram apreendidos. Entre eles estava um adolescente de 14 anos apontado pelos investigadores como líder do grupo.
Segundo a Polícia Civil, os grupos utilizavam mecanismos de chantagem, manipulação e coerção psicológica para submeter adolescentes em situação de vulnerabilidade às determinações dos integrantes. A investigação busca ainda identificar possíveis vítimas, interromper situações de risco e responsabilizar os envolvidos.
Policiais civis durante o cumprimento de mandado em um dos endereços-alvo da operação (Foto: Divulgação/PCMS)
A segunda fase é coordenada pela Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, com participação das Polícias Civis do Distrito Federal, Rio Grande do Sul, São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro, além do Ciberlab (Laboratório de Operações Cibernéticas), da Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Pública).
Adolescente de MS foi transformada em “escrava virtual” - Segundo a investigação da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, a adolescente de 13 anos, de Naviraí, foi submetida a um processo de controle psicológico e coerção dentro da organização criminosa, sendo tratada pelos integrantes como uma espécie de “escrava virtual”. A delegada titular da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente), Anne Karine, revelou a informação durante coletiva de imprensa em agosto.
Segundo a polícia, os criminosos buscavam informações sobre família, escola e rotina das vítimas para criar vínculos de confiança e, posteriormente, utilizar ameaças para controlar seus comportamentos. Meninas estariam entre os principais alvos.
A abordagem começava em redes sociais abertas, onde integrantes usavam perfis falsos e técnicas de engenharia social para se aproximar de crianças e adolescentes. Depois, as vítimas eram levadas para grupos privados, chamados de “panelas”, ambientes controlados pelos próprios criminosos.
Dentro desses grupos, as ações violentas eram chamadas de “eventos”. Conforme a investigação, os administradores das “panelas” assumiam uma posição de autoridade sobre as vítimas, fazendo com que elas acreditassem que poderiam sofrer consequências, assim como seus familiares, caso desobedecessem às ordens.
Viaturas da Polícia Civil durante o cumprimento das medidas da 2ª fase da Operação Lívia (Foto: Divulgação/PCMS)
A polícia também identificou uma espécie de disputa entre os grupos. Quanto maior a escalada de violência promovida por uma “panela”, maior seria o chamado “hype”, termo usado pelos próprios integrantes para definir o prestígio conquistado dentro da rede.
A DEPCA passou a investigar o caso após ser acionada pelo Ciberlab, em 22 de julho, depois da repercussão da morte da adolescente nas redes sociais. Para os investigadores, o episódio não deve ser tratado apenas como suicídio: há elementos que apontam para homicídio, diante da indução e do controle exercido sobre a vítima.
Por Bruna Marques
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