Quarta-Feira, 04 de Novembro de 2026

DATA: 05/08/2026 | FONTE: campograndenews Grupo transformou morte de adolescente de Naviraí em evento e já marcava nova live Investigação aponta que participantes assistiram à transmissão em tempo real e deram ordens à vítima

Enquanto uma adolescente de 13 anos era coagida durante uma transmissão ao vivo, dezenas de pessoas acompanhavam tudo em tempo real. Quando a live terminou, não houve pedidos de ajuda, manifestações de choque ou tentativas de interromper o que acontecia. Segundo a Polícia Civil, os participantes passaram a discutir a realização de uma nova transmissão e chegaram a fazer uma enquete para marcar outro "evento" no dia seguinte.

A Operação Lívia revelou que uma organização criminosa usava Telegram e Discord para transmitir ao vivo violências contra adolescentes vulneráveis, enquanto dezenas de participantes assistiam e planejavam novos eventos. A investigação, iniciada após a morte de uma adolescente em Naviraí, identificou estrutura com divisão de funções e recrutamento ativo. O Ministério da Justiça notificará as plataformas e a ANPD por falhas em verificação de idade e moderação de conteúdo.

A dinâmica foi detalhada nesta terça-feira (4), durante coletiva do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que apresentou novos desdobramentos da Operação Lívia, investigação coordenada pela Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente, de Mato Grosso do Sul.

Para o coordenador do Ciberlab (Laboratório de Operações Cibernéticas), Alessandro Barreto, as imagens e conversas analisadas pela equipe revelaram um comportamento que transformava a violência em uma forma de entretenimento coletivo.

Equipamentos eletrônicos apreendidos durante a operação serão periciados no decorrer da investigação. (Foto: Polícia Civil)

"Foi um verdadeiro espetáculo de horrores. As pessoas obrigavam, diziam 'posiciona a câmera'. Quando acabou a live, teve até enquete para marcar outra para o dia seguinte", afirmou.

Segundo Barreto, a transmissão durou aproximadamente 45 a 50 minutos e foi acompanhada em tempo real pelos integrantes da organização, que acompanhavam cada etapa dos desafios impostos à adolescente.

O que mais chamou a atenção dos investigadores, porém, foi a reação dos espectadores. "Não havia pedido para parar. Se tivesse ocorrido a interrupção, talvez não tivesse evoluído tanto."

Na avaliação da Polícia Civil, o caso demonstra que os participantes já não enxergavam a violência como algo excepcional. O sofrimento das vítimas havia sido transformado em conteúdo compartilhado, incentivado e comentado entre os integrantes da comunidade virtual.

Investigados foram alvos de mandados cumpridos simultaneamente pela Polícia Civil em cinco estados. (Foto: Polícia Civil)

Violência organizada

As autoridades destacaram que a investigação afastou a hipótese de um grupo formado ocasionalmente em uma plataforma de mensagens.

Segundo o secretário nacional de Direitos Digitais do MJSP, Victor Oliveira Fernandes, o material apreendido mostra que havia planejamento, divisão de funções, documentos internos e recrutamento constante de novos participantes.

"Não se trata simplesmente de existir um grupo aberto numa plataforma. A investigação tem documentação de uma sistematização, mais de um grupo, uma série de diálogos, reunião de documentos e discussão sobre recrutamento de novos integrantes", afirmou.

A organização utilizava plataformas diferentes para funções específicas.

Conforme a investigação, os integrantes usavam o Telegram para comunicação, recrutamento de adolescentes e divulgação dos chamados "eventos". Já o Discord servia para transmissões em tempo real, e os participantes acompanhavam os desafios.

Policiais civis cumprem mandado da Operação Lívia durante ação coordenada em cinco estados. (Foto: Polícia Civil)

"Esse grupo atua simultaneamente no Telegram, fazendo comunicações e propagandas de eventos de automutilação e de induzimento ao suicídio de crianças e adolescentes, que são transmitidos em tempo real dentro da plataforma do Discord", explicou Victor Oliveira Fernandes.

Da investigação em Naviraí à descoberta de uma rede nacional

A morte da adolescente em Naviraí foi o ponto de partida para uma investigação que mudou de escala.

As primeiras diligências da DEPCA mostraram que a vítima fazia parte de uma organização criminosa com atuação nacional, especializada em localizar adolescentes em situação de vulnerabilidade emocional para submetê-los a um processo contínuo de manipulação psicológica.

Segundo a Polícia Civil, os integrantes conquistavam a confiança das vítimas, promoviam isolamento, humilhações e desafios de violência crescente, ampliando gradualmente o domínio exercido sobre elas.

Materiais encontrados durante as buscas foram encaminhados para análise da Polícia Civil. (Foto: Polícia Civil)

A investigação também identificou outra vítima em outro estado e apontou indícios da existência de outros adolescentes submetidos ao mesmo esquema.

Nova tragédia foi evitada

Durante a coletiva, o delegado responsável pela investigação revelou que a Operação Lívia interrompeu um novo episódio que já estava sendo planejado.

Segundo ele, o monitoramento das conversas mostrou que outro "evento" estava agendado. A informação foi confirmada após a apreensão de um dos adolescentes investigados.

"Pelo acompanhamento, havia o planejamento e, ontem, na apreensão do adolescente do Rio, ele confessou que realmente já estava agendado."

A partir daí, a Polícia Civil iniciou a identificação das possíveis vítimas e passou a localizar seus responsáveis. "Estamos vendo o nome das possíveis vítimas para mandar avisar os pais e responsáveis para que fiquem atentos", afirmou.

Plataformas na mira

Além da responsabilização criminal dos investigados, o Ministério da Justiça informou que notificará Discord e Telegram para solicitar a suspensão das contas e dos servidores utilizados pela organização.

A pasta também encaminhará à ANPD (Autoridade Nacional de Proteção de Dados) pedido para apurar possíveis violações ao Estatuto da Criança e do Adolescente Digital e ao Marco Civil da Internet.

Segundo Victor Oliveira Fernandes, a investigação encontrou indícios de falhas em mecanismos de verificação de idade, supervisão parental e moderação de conteúdo das plataformas.

Como exemplo, o secretário citou um dos investigados que conseguiu se cadastrar informando ter nascido em 1877, o que lhe atribuiria 148 anos de idade, sem impedir o acesso aos serviços.

 

Por Gabi Cenciarelli

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