
O primeiro suíno clonado da América Latina nasceu com saúde no último dia 24 de março, em Piracicaba (SP). Boreal, como foi batizado, é resultado de uma parceria entre a Universidade de São Paulo (USP), o Instituto de Zootecnia (IZ) do Estado de São Paulo, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e a empresa XenoBrasil.
Com pouco mais de um quilo, ele passa bem e representa um grande passo tanto para a medicina quanto para a suinocultura. Segundo Simone Raymundo de Oliveira, diretora da Unidade de Tanquinho do IZ, o primeiro objetivo do projeto é o xenotransplante, técnica de transplante de órgãos entre diferentes espécies.
“O projeto foi idealizado pelo Dr. Silvano Raia com o objetivo de produzir um animal geneticamente modificado para transplantes a humanos sem rejeição. Os suínos podem ser doadores de diversos órgãos, como córneas, pele, rins e coração”, introduz.
Leia também:
· Como o leite de jumenta pode ajudar a salvar bebês prematuros e frear abate de animais
Os órgãos de suínos já foram usados em diversos procedimentos nos últimos anos, com a finalidade de reduzir as filas de espera, que afligem cerca de 84 mil pessoas atualmente no Brasil.
"Nos Estados Unidos, temos registro de dois transplantes cardíacos e seis renais, e outro na China”, completa Luciano Abreu Brito, sócio da XenoBrasil e pesquisador do Instituto de Biociências (IB) da USP.
No caso da suinocultura, o animal clonado também é um avanço importante para multiplicar animais geneticamente editados por CRISPR ou mesmo geneticamente modificados.
Tais tecnologias genéticas podem trazer características desejáveis à produção comercial, desde melhor desempenho zootécnico e imunidade até a eliminação de alergênicos visando o consumo humano.
A técnica CRISPR é conhecida também como edição gênica, ou “tesoura genética”. Ela liga ou desliga genes já presentes em um genoma (conjunto de genes), sem inclusão de nenhum gene de outra espécie.
Já a transgenia, que cria organismos geneticamente modificados (OGMs), insere genes de outras espécies — chamados exógenos — no genoma original.
“Se podemos gerar características importantes para transplantes, também é possível para características de interesse na pecuária. Inclusive, a americana FDA (Food and Drug Administration) já aprovou suínos editados geneticamente”, conta Luciano.
Ele se refere ao suíno editado geneticamente que não produz o açúcar alfa-gal, que gera indigestão em determinado grupo de pessoas.
“Ao clonar suínos, pudemos reproduzir animais com algumas características desejáveis. Nosso foco é a medicina, mas estamos prontos e abertos para o agro. Poderíamos começar hoje”, comenta.
O grupo de pesquisa da USP desenvolve o projeto desde 2020 e já conseguiu produzir células de suínos geneticamente modificadas.
Segundo a instituição, foram retirados três genes suínos (GGTA1, CMHA e B4GALNT2) para impedir rejeição hiperaguda, o que evita a destruição do órgão nas primeiras horas ou dias após o transplante.
O grupo ainda planeja a inserção de sete genes humanos para aumentar a compatibilidade e evitar rejeição tardia.
Equipe do Instituto de Zootecnia com o suíno Boreal — Foto: Divulgação
A Faculdade de Medicina da USP já fez a adequação de técnicas cirúrgicas e manejo de órgãos suínos desde a captação, passando pela logística de transporte até o transplante. Com o auxílio do IZ, foram estabelecidos rigorosos protocolos para os animais, com monitoramento da saúde e do bem-estar.
Em parceria com o IPT, foram construídas as primeiras instalações da América Latina para produção de suínos para xenotransplante, estruturas com elevado controle sanitário e de bem-estar, em conformidade com todas as exigências regulatórias.
O leitão Boreal é uma cópia geneticamente exata de outro animal, que tinha características intrínsecas, fisiológicas, genéticas e anatômicas perfeitas para o experimento.
“Era um animal extremamente saudável, com temperamento ameno, tamanho e espessura de toicinho ideais, além de tamanho de órgãos, oxigenação e desenvolvimento muscular adequados”, conta Simone.
A partir de agora, o clone será estudado em todo o seu desenvolvimento até a sua maturidade reprodutiva por uma equipe multidisciplinar de 20 a 30 profissionais.
"Ele não doará órgãos porque é um clone sem modificação genética. Ele representa um salto tecnológico na América Latina, que será base para outras adaptações genéticas”, explica.
O próximo passo é iniciar a produção dos clones suínos geneticamente modificados. De acordo com ela, a velocidade do desenvolvimento até a produção em série de animais aptos à doação de órgãos para humanos depende do nível de investimento.
“Conseguindo os aportes, esperamos que até dezembro tenhamos o primeiro animal geneticamente modificado. O potencial é enorme, mas são desenvolvimentos caros”, pontua.
Simone explica que manter o projeto por três anos pode custar, pelo menos, R$ 30 milhões.
“Além disso, temos diversas etapas, até chegar aos testes em humanos voluntários, e a legislação brasileira não prevê esse tipo de transplante. Se tudo der certo, poderemos ter 50 animais por mês em seis ou sete anos”, diz.
As pesquisas com clonagem de suínos também revelaram outras vantagens para as granjas, que vão além do objetivo inicial de reprodução genética.
Um dos pontos mais relevantes é o avanço no controle sanitário, ou hiper-sanidade, que pode padronizar um alto nível de biosseguridade nas granjas. Os locais nos quais o leitão Boreal ficará exigem respostas mais previsíveis frente a desafios sanitários, para diversos agentes.
Por isso, os pesquisadores desenvolveram novos protocolos para 11 patógenos, entre eles o circovírus tipo 2. “Recebemos o contato de profissionais da suinocultura interessados nos protocolos. Outro achado importante está na interação com programas de vacinação”, conclui Luciano.
Por Daniel Azevedo Duarte — Campinas (SP)
10/04/2026
Receita Federal alerta para novo golpe digital envolvendo falsas pendências do IRPF
10/04/2026
Sancionada leis para fortalecer combate à violência contra mulheres
09/04/2026
Naviraí capacita servidores sobre novas diretrizes do BPC; benefício movimenta R$ 2,6 milhões ao mês
09/04/2026
Infecção generalizada levou criança à morte em hospital, aponta certidão