Terça-Feira, 03 de Março de 2026

DATA: 03/03/2026 | FONTE: campograndenews Para salvar neta do câncer, Maria ex-moradora de Naviraí fez santa gigante na calçada de casa na Capital Imagem atrai gente curiosa e devotos até de madrugada; presença divina é pagamento de promessa à santa

Na Rua Girassol em Campo Grande, a devoção de Maria Nilza de Almeida da Silva à Nossa Senhora Aparecida tem feito muita gente parar o carro e pedir bênção para a santa de 1,60 metro que ocupa parte da calçada. A imagem foi instalada há 1 ano depois que a neta foi diagnosticada com um câncer no intestino e no pescoço e venceu a doença. A presença divina por ali é o pagamento da promessa que a avó fez pelo milagre.

Embora o lugar tenha câmeras e o relato de fiéis na porta da casa de Maria seja frequente, a comerciante não guarda as imagens daqueles que vão até lá ou se deparam com a santa “blindada por um vidro” sem querer e param para registrar.

Ela conta que muitas pessoas ficam curiosas com Nossa Senhora grande em uma caixa transparente e uma foto de uma criança na parte de cima. Quem olha com atenção também vê o retrato de uma família no centro do rosário, que também é personalizado.

Izadora Félix quando mais nova; menina ganhou espaço na caixa de vidro da santa (Foto: Natália Olliver)

Maria explica que, depois de tantas curas concedidas pela padroeira do Brasil na família, não podia deixar que a imagem ficasse escondida na parte de dentro da casa. A ideia era expor a fé para quem quisesse ver. Sem medo de roubos, Maria brinca dizendo que a santa se protege sozinha e que ninguém se atreve a mexer com ela.

“Coloquei na calçada porque falei para Nossa Senhora que todo mundo tem que ver que ela fez a cura, ela tinha que estar na frente. Todo mundo tem que saber que ela é poderosa, que tem cura e dá a cura. O povo gosta, todo dia vem gente, tira foto. Vem até de madrugada e vejo pela câmera que a pessoa tira foto, reza. Tem gente que passa de manhã, tira o chapéu da cabeça e se benze. Ela está na frente por isso, para o pessoal ver que ela existe.”

Além de colocar Nossa Senhora na calçada, Maria também ficou 1 ano comendo apenas arroz, feijão, farinha e macarrão. A filha, Érica Félix, mãe de Izadora Félix, de 12 anos, conta que a menina foi diagnosticada com linfoma de Hodgkin e desde então, foram dias de lutas intermináveis.

Maria toca conveniência no bairro há 8 anos junto ao marido, Cícero (Foto: Natália Olliver)

“Minha filha é jovem e cheia de energia, nunca ficou doente. Saiu um caroço no pescoço suspeito e fizemos vários exames que não davam em nada. Por último, fizemos cirurgia, foi para biópsia e veio o resultado".

Foram seis meses de tratamento com quimioterapia; Izadora perdeu os cabelos e ganhou dias terríveis de muita dor. “Mas sempre confiei que ela iria ser curada. Levantamos um exército de oração. A minha mãe sempre me surpreende com tamanha fé. Quando eu chorava, ela dizia: ‘Por que chora? Ela já está curada?’ Ela falava com tanta fé que até eu mesma estranhava.”

Maria relembra que o diagnóstico foi como um soco no estômago, mas que imediatamente começou a rezar para Nossa Senhora Aparecida.

“Minha neta estava com câncer, entramos em desespero e eu prometi que, se ela curasse minha neta, eu mandaria fazer uma imagem dela do tamanho dela. A gente tem que ter fé e fazer o sacrifício.”

A devota explica que a história com a santa começou há anos, quando o filho, que tem 46 anos hoje, colocou a boca em um fio energizado, levou um choque elétrico e quase faleceu.

Imagem de Nossa Senhora na calçada atrai gente curiosa e devotos até de madrugada (Foto: Natália Olliver)

“Eu morava em Santos, litoral de São Paulo. Nessa época eu ajoelhei e pedi tanto que o médico falou que, se tivesse demorado 5 minutos, teria morrido; ele sobreviveu e ficou 5 anos com cabelo grande. Cortei e levei para Aparecida do Norte para pagar promessa. Já fui de joelhos pagar promessa também e ainda preciso voltar lá e levar a minha neta, que, com 6 meses, perdeu um rim e estava prejudicando o corpo. Ela mora em Santa Catarina. Essa é a última promessa que tenho que pagar.”

Na família, Maria atribui 4 curas à santa: a da neta Izadora, a do neto que teve meningite, a do marido, que entrou na sala de cirurgia com dois caroços no intestino e a da mãe, que teve câncer retal. “Eu fiz meu sacrifício porque foi uma luta. Meu filho queria que eu fosse a Aparecida do Norte para desfazer a promessa e voltar a comer normal. Depois fui ao médico ver como estava. Só Deus para ter me ajudado.”

Aos 62 anos, Maria toca uma conveniência que leva o nome do marido, Cícero. Tímido, ele prefere ficar de fora da reportagem, mas assiste à esposa contar tudo emocionada. Eles moraram quase a vida toda em Naviraí e vieram para a Capital por um problema de saúde de Cícero.

“Temos a conveniência há 8 anos. Minha filha montou para o pai. Como ele teve H1N1 e não podia trabalhar mais, ele perdeu 50% do pulmão. A nossa vida é isso aí e Nossa Senhora Aparecida. A gente vende de tudo um pouco, arroz, feijão, farinha, óleo, é um mini mercadinho. Sai muito arroz. A gente é tapa-buraco. Arroz, óleo e farinha. Fiz a santa em uma cidade próxima a Dourados. Fui buscar, colocamos e, graças a Deus, ninguém mexe.”

Quem quiser visitar a santa, Maria não se importa, inclusive gosta. A Conveniência do Cícero, onde a imagem está, fica na Rua Girassol, 79, bairro Bonjardim em Campo Grande.

 

Por Viviane Oliveira

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